De boas intenções está não só o inferno cheio, como também o arquivo dos filmes medíocres, descartáveis, indiferentes. Dito de outra maneira: as causas nobres, a vontade de denunciar injustiças antigas, o desejo de remediar o passado retroactivamente e com juros, não dão imediata e necessariamente bom cinema. Isso fica provado, mais uma vez, em Elementos Secretos, de Thodore Melfi. O filme pretende resgatar do esquecimento o trabalho das mulheres negras que trabalharam na NASA nos anos 50 e 60 fazendo complexos cálculos matemáticos para o lançamento do programa espacial americano, e não só foram segregadas no seu local de trabalho e na remuneração, como apenas muito recentemente lhes foi concedido o devido reconhecimento público pelo seu contributo para o Projecto Mercúrio e outras missões.
O realizador destaca três delas, interpretadas por Taraji P. Henson, Octavia Spencer e pela cantora e modelo Janelle Monáe, que se limitam a flutuar num banho maria edificante e entediante, onde convivem com estereótipos vários, desde o director progressista da equipa, interpretado por Kevin Costner, até ao engenheiro-chefe dissimuladamente racista, um Jim Parsons de A Teoria do Big Bang que não cabe no papel nem martelado e que a todo o momento esperamos que se comece a comportar como Sheldon Cooper.
Tão demonstrativo como anónimo, Elementos Secretos escuda a sua banalidade com as boas intenções de que vem revestido.
Por Eurico de Barros