Chavela Vargas será, para a maioria, uma desconhecida. Pudera, a memória é curta e a cantora nascida na Costa Rica, vencedora de um Grammy e ícone da música popular no México, morreu em 2012, depois de anos de silêncio.
Com este documentário, baseado numa entrevista registada duas décadas antes da sua morte e até aqui inédita, Catherine Gund e Daresha Kyi pretendem acabar com esse anonimato e apresentar não só uma grande cantora, como, mais do que tudo, uma mulher invulgar, ainda mais na sua época. E não foi só (enfim, também foi, não sejamos inocentes) por se enfiar entre os lençóis de Ava Gardner, viver um ano de cama e pucarinho com Frida Kahlo, ou andar de pistola à cinta (ou à liga?) e não hesitar em disparar quando se sentia particularmente bem-disposta. Pois a jornada em que se meteu, nas suas alegrias e dores, aqui conduzida pela sua música e pelas suas palavras, entre a profunda espiritualidade e uma acentuada queda para o deboche e a provocação, é um retrato sério (embora um pouco condescendente) de uma vida sem dúvida singular.
Por Rui Monteiro