Quem viu o segundo remake de Nasceu Uma Estrela, realizado por Frank Pierson em 1976, lembra-se que o filme é um hino ao colossal narcisismo de Barbra Streisand – que, além de personificar a heroína, também produziu esta versão, com Jon Peters, o ex-cabeleireiro de Hollywood que se tornou seu amante e gestor de carreira. Kris Kristofferson, com quem Streisand contracena, passa o filme a apanhar bonés e a ouvi-la cantar.
Assim Nasce Uma Estrela, a terceira versão da velha história da anónima talentosa (de novo, uma cantora e compositora) que é ajudada a triunfar por um veterano na mó de baixo, realizada por Bradley Cooper depois de Clint Eastwood ter desistido de a rodar com Beyoncé, tem o mérito de recalibrar as relações e distribuir de forma mais equitativa o tempo – de antena e de palco – entre as duas personagens principais, interpretadas por Cooper e por Lady Gaga.
O filme está no seu melhor durante a primeira hora, quando a desconhecida Ally (Gaga, mostrando que também sabe representar) e Jackson Maine (Cooper), a estrela rock alcoólica, toxicodependente e com problemas auditivos se conhecem por acaso, passeiam à noite pelos bares e ruas de uma cidade, cantam juntos, apaixonam-se e ele a leva em digressão com a sua banda e ficam em êxtase de felicidade. O que faltava em química, sintonia e voltagem emocional e dramática ao par Streisand/Kristofferson, na versão de 1976, sobra ao par Gaga/Cooper.
É pena que, depois de a personagem se tornar famosa, a singela e fresca Ally se dilua e transforme em Lady Gaga, Bradley Cooper se ponha a imitar Jeff Bridges e a fita se atole nos lugares comuns pirosos e caramelizados do seu surrado enredo, arrastando-se até um final telegrafado com meia hora de antecipação.
Por Eurico de Barros